ES POSIBLE · SIMÓN LEVYDiario Geopolítico
Notícias e análise geopolítica para as três Américas
Edição Brasil e América LatinaN.º 215Segunda-feira, 2 de novembro de 2026PTES
Simón LevyPor Simón Levy · Washington, D.C.
IBOVESPA (30/out) 167.921,80 -0,75%DÓLAR COMERCIAL (30/out) R$ 5,4443 +1,06%SELIC 13,75%MERVAL (30/out) 92.079 -2,59%DÓLAR ATACADISTA BCRA (30/out) 1.534 -0,29%RESERVAS BCRA US$ 48.562 mi -COPOM 4/nov 18h30IBOVESPA (30/out) 167.921,80 -0,75%DÓLAR COMERCIAL (30/out) R$ 5,4443 +1,06%SELIC 13,75%MERVAL (30/out) 92.079 -2,59%DÓLAR ATACADISTA BCRA (30/out) 1.534 -0,29%RESERVAS BCRA US$ 48.562 mi -COPOM 4/nov 18h30

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Lâmina · Um tribunal vazio e, do outro lado do mar, uma pista com um jato solitário
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Edição Brasil e América Latina · N.º 215

Flávio diz de Miami que não se arrepende de nada. No TSE, 22 ações esperam os dois lados.

A nota foi publicada no domingo, um dia depois de Trump dizer que ele pode ficar nos Estados Unidos “quanto tempo quiser”. O recurso de fraude que ele anuncia não existe no tribunal. As ações que existem são outras: 7 contra ele, 15 contra Lula.

O essencial em 30 segundos
  • Flávio Bolsonaro publicou no domingo, 1º de novembro, de Miami, que não se arrepende de nada; Trump disse no sábado que ele pode ficar nos EUA “quanto tempo quiser”.
  • Levantamento da CNN Brasil conta ao menos 22 ações de investigação judicial eleitoral no TSE: 7 contra Flávio e 15 contra a chapa de Lula, que pode ser diplomada até 18 de dezembro.
  • O Copom anuncia a Selic na quarta, 4 de novembro, às 18h30: a curva precifica 13,5% e grandes bancos esperam a pausa do ciclo de cortes iniciado em março.
  • Marco Rubio recebe hoje em Washington o novo chanceler venezuelano, Oliver Blanco, enquanto as vendas de petróleo da Venezuela aos EUA somam 127,54 milhões de barris até agosto, 236% mais.
O reel de hoje

As três edições em um minuto.

México em espanhol, Brasil e América Latina em português e Estados Unidos em inglês. Sem voz: dê o play e leia.

Baixar o reel ↓
01
PrincipalBrasil · TSE · Estados Unidos
O candidato derrotado publicou uma nota no domingo alegando perseguição política. Na véspera, Donald Trump disse que ele pode ficar nos Estados Unidos o tempo que quiser. No tribunal eleitoral, porém, o pedido de anulação que ele anunciou não foi protocolado, e a conta das ações que existem não favorece a narrativa de fraude.
5 min de leituraSimón Levy
22ações de investigação judicial eleitoral no TSE, segundo levantamento da CNN Brasil
15delas contra a chapa vencedora; 7 contra Flávio Bolsonaro
4.430.191votos de diferença no segundo turno, segundo o TSE

O problema, em poucas palavras.Uma semana depois de perder o segundo turno, Flávio Bolsonaro está em Miami, com ordem do Supremo Tribunal Federal para entregar os passaportes e investigado por lavagem de dinheiro e evasão de divisas, segundo a imprensa brasileira. No domingo, ele publicou uma nota dizendo que não se arrepende de nada e que é vítima de perseguição política. Ao mesmo tempo, o presidente dos Estados Unidos disse que ele pode ficar no país o tempo que quiser. A pergunta para o leitor é simples: o que disso muda alguma coisa no Brasil real, o dos tribunais e dos prazos?

A. O que Flávio escreveu.Na nota publicada no X em 1º de novembro, Flávio afirma que não se arrepende de “absolutamente nada” do que fez. A frase que resume a defesa dele é “Não saí do Brasil, saí pelo Brasil”. Ele diz que a ordem de medidas cautelares saiu sete minutos depois do resultado e que a citação chegou doze horas depois, na porta da casa do pai. Diz também que a Rede Globo ofereceu uma entrevista e depois desistiu, e que dará entrevistas a grandes veículos “sem cortes”. São afirmações dele, não verificadas por documento público até esta edição. Em um segundo post, ele reconhece que a Polícia Federal o intimou, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, a entregar os passaportes.

B. O que Washington disse.No sábado, 31 de outubro, Donald Trump afirmou que Flávio pode permanecer nos Estados Unidos “quanto tempo quiser” e que não tem planos de recebê-lo. Em Atlanta, durante a reunião de chanceleres do G20, o secretário de Estado Marco Rubio disse que Flávio já dispunha de um visto e que o presidente decidiu permitir a entrada; acrescentou que o governo americano não participou diretamente da saída. As versões sobre a base legal da estadia não batem: um funcionário do Departamento de Estado disse em 27 de outubro que os EUA emitiriam vistos para ele e a família; parte da imprensa brasileira fala em parole humanitário de um ano. Visto e parole são figuras diferentes na lei americana, e a diferença importa para qualquer pedido de cooperação.

C. O que existe no tribunal.Aqui está o dado que a nota não menciona. Segundo levantamento da CNN Brasil, publicado em 1º de novembro, tramitam no Tribunal Superior Eleitoral ao menos 22 Ações de Investigação Judicial Eleitoral, as Aijes, contra as duas campanhas. Flávio é investigado em ao menos 7; a chapa de Lula aparece em 15. Contra Flávio, os temas incluem o filme Dark Horse, o grupo de WhatsApp “Tropa do Flávio” e uma possível interferência de grupos dos EUA. Contra Lula, o desfile da Acadêmicos de Niterói e o grupo “Exército do Lula”, ligado ao deputado André Janones. A sanção possível para o derrotado é multa e inelegibilidade de oito anos; para o vencedor, a cassação do diploma ou do mandato, se o abuso for provado. Esses processos podem levar meses ou anos.

O dado necessário.Pelo resultado do TSE, Lula teve 64.256.232 votos (51,79%) e Flávio 59.826.041 (48,21%), uma diferença de 4.430.191 votos. O TSE marcou a diplomação até 18 de dezembro. Até lá, nenhuma petição de anulação por fraude foi protocolada por Flávio, segundo o que foi publicado até esta manhã. A advogada Maria Claudia Bucchianeri, segundo o site Brasil em Folhas, não vai protocolar novas ações em nome dele; a informação é de fonte única e o jornal a registra como tal.

Os nomes.Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, divulgou nota dizendo que a Justiça Eleitoral está comprometida com “a vontade soberana do eleitorado”. O vice, André Mendonça, também indicado por Jair Bolsonaro, é descrito por fontes anônimas como distante de Flávio depois da carta de 28 de outubro, em que ele se chamou de “verdadeiro presidente do Brasil”. No campo político, o senador Rogério Marinho (PL-RN) disse que nem ele nem o partido podem alegar fraude, e o governador Tarcísio de Freitas pediu respeito ao resultado. Jair Bolsonaro cumpre pena de mais de 27 anos, em prisão domiciliar.

Análise do jornal

A nota de Miami fala para fora; o processo que pode mexer no resultado fala para dentro. Das 22 Aijes, 15 miram a chapa vencedora: 68,2%. Isso não prova nada contra ninguém, porque ação não é condenação, mas mostra onde está o risco jurídico real. Ele não está na anulação por fraude que não foi protocolada; está em processos de abuso de poder que andam no ritmo do tribunal e que ninguém em Miami controla.

Há uma segunda leitura. Quando os dois principais aliados de Flávio no TSE, Nunes Marques e Mendonça, se distanciam publicamente, a chance de uma virada judicial antes de 18 de dezembro cai para perto de zero. O que sobra é o desgaste internacional, e esse depende de Washington, não de Brasília.

O que eu digo

Em 27 de outubro, às 20h, eu disse publicamente que Flávio sairia do Brasil rumo aos Estados Unidos com o apoio de Javier Milei. Ele aterrissou em Opa-locka, Miami, no dia 28, e agradeceu publicamente a Milei. Em 30 de outubro, na Argentina, eu disse: «Graças a Javier Milei, Flávio Bolsonaro está vivo». Essas são as minhas palavras já publicadas; o resto desta nota é análise do jornal.

O ângulo que falta.O caso agora tem duas jurisdições e uma pergunta só: com que papel Flávio está nos EUA. Se for visto de turista, a estadia tem prazo e condições; se for parole humanitário, é uma decisão discricionária do Executivo americano, revogável a qualquer momento. Em qualquer dos casos, um eventual pedido brasileiro de extradição passaria pelo Ministério da Justiça e pelo Departamento de Estado, sob o tratado bilateral de 1961. Nada disso foi pedido até agora.

O que observar esta semana.Se Flávio protocola algo no TSE; se o Itamaraty pede formalmente informações a Washington sobre a base da estadia; e se a Polícia Federal informa ao STF o descumprimento da entrega dos passaportes. Cada um desses passos deixa papel. Sem papel, é narrativa.

Flávio Bolsonaro e todas as pessoas citadas têm direito à presunção de inocência. Ser investigado ou alvo de uma ação eleitoral não é condenação.

Saída jurisdicional

Estatuto
Lei Complementar 64/1990, art. 22 (Aije e inelegibilidade de 8 anos); nos EUA, INA §212(d)(5) se a estadia for parole humanitário.
Onde apresentar
TSE (diplomação até 18 de dezembro); Ministério da Justiça, DRCI, para cooperação e extradição; Departamento de Estado.
Documento que falta
Falta o documento que diz se Flávio entrou com visto ou com parole, e a petição de anulação que ele anuncia e não protocolou.
Fontes: TSE (resultado do segundo turno, 25 out 2026); nota de Flávio Bolsonaro no X (1 nov 2026), via JETSS; Trump, entrevista de 31 out 2026, via Fatonews e Rio Times; levantamento CNN Brasil das Aijes, via BNews (1 nov 2026); Brasil em Folhas (1 nov 2026, fonte única).
As pessoas citadas são presumidamente inocentes. Investigações e ações eleitorais não equivalem a condenação. As afirmações de Flávio Bolsonaro são dele e não foram verificadas por documento público.
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Edição Brasil · Eleição e mercados

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O mapa do dia

Onde aconteceu o de hoje. Toque um país.

Cada país marcado leva à notícia que o explica.

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Acompanhamento

Da urna à diplomação, passo a passo.

O caso Flávio e os prazos que não dependem dele.

1
25 out
Segundo turno

Lula vence com 51,79% dos votos válidos, por 4.430.191 votos.

2
28 out
Pouso em Opa-locka

Flávio chega a Miami depois de sair pela Argentina.

3
31 out
Trump: “quanto tempo quiser”

O presidente dos EUA diz que Flávio pode ficar e que não planeja recebê-lo.

4
1 nov
A nota de Miami

Flávio diz que não se arrepende de nada; 22 Aijes seguem no TSE.

68,2%

A parte das ações eleitorais no TSE que tem como alvo a chapa vencedora.

15 de 22 Aijes contadas pela CNN Brasil miram a chapa de Lula; 7 miram Flávio Bolsonaro. 15 dividido por 22 dá 0,682. Ação não é condenação: é onde está o risco jurídico real até a diplomação de 18 de dezembro.

Cálculo do jornal com o levantamento da CNN Brasil, via BNews (1 nov 2026)
02
Brasil · Banco Central · Mercados

O primeiro Copom depois da urna decide na quarta. A curva pede corte; os bancos pedem pausa.

O Banco Central anuncia a Selic em 4 de novembro, às 18h30, um dia depois das eleições de meio de mandato nos EUA. O mercado precifica 13,5%; Itaú e Bradesco esperam a interrupção do ciclo que começou em março.
4 min de leituraSimón Levy
4 novdia da decisão do Copom, às 18h30
13,5%taxa que o mercado precifica para a decisão
R$ 5,4443dólar comercial no fechamento de outubro

O problema, em poucas palavras.O Brasil acabou de reeleger o presidente, o dólar subiu, a Bolsa caiu, e agora o Banco Central precisa dizer se continua baixando os juros. Juros mais baixos aliviam empresas e famílias endividadas; juros parados protegem o real. O Copom tem de escolher na quarta-feira, e o mercado não está de acordo sobre o que ele vai escolher.

A. O calendário.O Banco Central anuncia a decisão na quarta-feira, 4 de novembro, às 18h30. É a primeira reunião depois do segundo turno de 25 de outubro. Na véspera, terça, os Estados Unidos votam nas eleições de meio de mandato. Na mesma quarta, sai o Caged de setembro, com projeção de 150 mil vagas formais. Na terça, logo após o feriado de Finados, Itaú, Magazine Luiza, C&A e Sabesp publicam resultados do terceiro trimestre.

B. A divergência.Segundo a agenda econômica publicada no domingo pelo portal AmdJus, com base no InfoMoney, o mercado precifica uma taxa de 13,5%, ou seja, mais um corte de 25 pontos-base sobre os 13,75% atuais. Ao mesmo tempo, analistas de Itaú e Bradesco esperam a interrupção do ciclo de cortes que começou em março. As duas coisas não podem acontecer juntas. O texto também afirma que a decisão deve ser unânime, o que reduz o espaço para surpresa no voto, mas não na direção.

C. O pano de fundo.O dólar comercial fechou a sexta, 30 de outubro, em R$ 5,4443, alta de 1,06% no dia. O Ibovespa encerrou em 167.921,80 pontos, queda de 0,75%, depois da pior semana desde março de 2020. No outro lado do balanço, a Petrobras atingiu R$ 800 bilhões de valor de mercado em 14 de outubro, um recorde, e informou produção própria recorde de 3,512 milhões de barris de óleo equivalente por dia no terceiro trimestre, 11,7% acima do ano anterior.

O dado necessário.A Selic está em 13,75%. A diferença entre pausar e cortar é de 0,25 ponto percentual ao ano. Em um financiamento de R$ 100 mil indexado ao CDI, isso equivale a cerca de R$ 250 por ano de juros a mais ou a menos, antes de spread e impostos. Cálculo do jornal, meramente ilustrativo.

Os nomes.Gabriel Galípolo preside o Banco Central e conduz o Copom. Magda Chambriard preside a Petrobras desde maio de 2024. Até 1º de novembro, segundo o Rio Times, o presidente Lula não anunciou mudanças no comando da Petrobras, do Banco do Brasil ou da Caixa, o que o mercado lê como sinal de continuidade até a posse.

Análise do jornal

O comunicado de quarta vale mais pelo texto do que pelo número. Se o Copom pausar, a pergunta é se ele cita o cenário externo, a eleição americana e o câmbio, ou se cita a política fiscal do quarto mandato. A primeira opção é técnica; a segunda é um recado a Brasília. Em ambos os casos, um Banco Central que não se move por calendário político é o que protege o real de quem poupa.

O mercado e os bancos discordam, e isso é saudável: é o preço da incerteza depois da urna. O erro seria ler a decisão como voto de confiança ou desconfiança no governo eleito. É uma decisão sobre inflação esperada.

Por que a eleição americana entra na conta.Se os democratas ganharem o Congresso na terça, Trump já disse que bloquearia iniciativas, o que pode mexer com os juros longos dos EUA e, por tabela, com o dólar no Brasil. O Copom decide sabendo o resultado de uma eleição que não é a sua. Por isso a decisão de quarta é também uma leitura do mundo, não só do IPCA.

O que dizem os números da Petrobras.O lucro líquido do segundo trimestre foi de R$ 52,4 bilhões, alta de 97%, e a dívida bruta de US$ 70,8 bilhões ficou abaixo do teto de US$ 75 bilhões do plano 2026-2030, segundo dados da empresa citados pelo Rio Times. O governo federal detém 50,26% das ações ordinárias; investidores estrangeiros, 48,73% do capital total. Qualquer sinal de mudança na governança da estatal entraria direto no câmbio.

O que observar.O placar da votação, a frase sobre o horizonte relevante e qualquer menção ao câmbio. E, na quinta de manhã, o dólar.

Saída jurisdicional

Estatuto
Lei Complementar 179/2021 (autonomia do Banco Central e mandato de estabilidade de preços).
Onde apresentar
Copom, Banco Central do Brasil (comunicado em 4 nov, ata na terça seguinte).
Documento que falta
Falta a ata, que explicará se a decisão pesou o câmbio pós-eleitoral ou o fiscal de 2027.
Fontes: Banco Central do Brasil (calendário do Copom); AmdJus, com base no InfoMoney (1 nov 2026); B3 (fechamento de 30 out 2026); Petrobras, via Rio Times (1 nov 2026).
Projeções de mercado não são decisões. O cálculo do jornal é ilustrativo e não constitui recomendação de investimento.
03
O que eu digoSimón Levy · Brasil, Washington e México

Lula ganhou a eleição? Não vai conseguir governar.

A cunha que ninguém está vendo: Flávio nos Estados Unidos, um Congresso contra, o Tesouro fechando a porta e um impeachment que se prepara desde janeiro.
7 min de leituraSimón Levy
4.430.191votos de diferença no segundo turno
286deputados do bloco que apoiou Flávio
42 a 34o Senado rejeitou o indicado de Lula ao Supremo

Na sexta-feira, 30 de outubro, Flávio Bolsonaro abriu uma transmissão ao vivo dos Estados Unidos. Disse que não saiu do Brasil, que saiu pelo Brasil. E soltou uma frase que quase ninguém em Brasília quis ouvir: que Lula pode cair muito antes do que as pessoas imaginam.

Este texto é sobre essa frase. Sobre por que Washington recebeu em três dias um candidato derrotado. Por que Lula ganhou a eleição e perdeu o Congresso. O que vai ser travado. Como se monta um impeachment no Brasil. E por que o Tesouro dos Estados Unidos vai separar o Brasil do México, do Foro de São Paulo e do Irã.

A sexta: três dias em Miami e um novo roteiro.

Na quarta-feira, 28 de outubro, às 9h30, um avião particular pousou no aeroporto executivo de Opa-locka, em Miami. Desceram Flávio Bolsonaro, a esposa e as duas filhas.

Washington não escondeu. Na terça, antes da travessia, um alto funcionário do Departamento de Estado anunciou que os Estados Unidos dariam vistos a Flávio e à família. Segundo registros do serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras citados por Estadão, G1 e O Globo, ele entrou com um parole humanitário de um ano. E, segundo o The New York Times, com fontes do próprio governo, Donald Trump garantiu que ele pudesse sair do Brasil e entrar nos Estados Unidos.

No Brasil não há mandado de prisão, nem pedido de extradição, nem difusão vermelha da Interpol. Há pedidos de deputados do PT que ninguém decidiu. A Polícia Federal disse que não entregar o passaporte não o torna foragido por si só. Ele é investigado por lavagem e evasão em casos ligados aos descontos do INSS e ao Banco Master. Ele nega, e tem direito à presunção de inocência.

Agora o importante. Na quarta, Flávio publicou uma carta em que se apresentava como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Circularam três ou quatro versões. A última já não dizia presidente eleito. Dizia líder do Brasil. Posso confirmar que funcionários ligados ao Departamento de Estado pediram que ele tirasse essa palavra. O UOL confirmou depois.

Não saí do Brasil. Saí pelo Brasil.Flávio Bolsonaro, carta de 28 de outubro

Na sexta, 30, a mudança se completou. Numa live no Instagram, sem palco e sem convidados, ele disse quatro coisas. Que tomou a decisão de sair com a esposa, sem que ninguém soubesse. Que ninguém é responsável pela sua saída. Que de fora poderá ser «uma voz um pouco mais ativa ainda» de quem votou nele. E que, se for preciso, vai disputar a presidência de novo, porque os problemas econômicos de Lula podem derrubá-lo «muito antes do que muita gente imagina». Falou de impeachment e de uma eleição antes de 2030. E apoiou Rogério Marinho para presidir o Senado.

Leitura de Simón Levy

Essa é a razão de fundo da aparição. Washington não pode hospedar um presidente autoproclamado, porque isso é romper com o Brasil. Pode hospedar o chefe da oposição. Na sexta, Flávio deixou de ser o presidente eleito que ninguém reconhece e virou o líder da oposição que ninguém pode tocar.

Simón Levy, «A cunha: o que vem para o Brasil», lacuna.simonlevy.mx/pt e Patreon, 2 de novembro de 2026.

O domingo: duas horas que metade do Brasil não vai perdoar.

Primeiro, o contexto. No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio venceu: 47,03% contra 45,16% de Lula. Chegou ao segundo turno na frente.

No domingo, no meio do dia, o PT pediu para prorrogar a votação por problemas de transporte na Bahia, um dos seus redutos. O ministro do STF Cristiano Zanin atendeu e prorrogou a votação por duas horas, até as 19h, no país inteiro. Zanin foi advogado pessoal de Lula até 2023, quando Lula o nomeou para o Supremo. A campanha de Flávio também pediu duas horas a mais naquele dia, mas só em 17 municípios de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Depois veio o que incendiou tudo: o TSE suspendeu a apuração.

Quando a apuração voltou, Lula tinha vencido. 64.256.232 votos contra 59.826.041. São 51,79% contra 48,21%. Uma diferença de 4.430.191 votos.

Naquela noite, Flávio disse que não ia aceitar que a regra mudasse no meio do jogo e prometeu pedir a anulação. O argumento jurídico cita o artigo 220 do Código Eleitoral e cerca de 34 mil votos depositados depois das cinco da tarde.

Agora digo o que precisa ser dito, porque se eu não disser vão usar contra mim. O presidente do TSE, Nunes Marques, nomeado por Jair Bolsonaro, disse que a votação transcorreu com absoluta normalidade. O Tribunal desmentiu que tenha retirado os fiscais do PL da sala-cofre. Rogério Marinho admitiu que não tem provas. Tarcísio de Freitas disse que a eleição acabou. O PL reconheceu o resultado. E a conta pesa: 34 mil votos tardios não explicam uma diferença de 4,4 milhões.

Leitura de Simón Levy

Então não aconteceu nada? Aconteceu algo mais grave que uma fraude provada. Um ministro nomeado por Lula, que foi advogado dele, mudou o horário da eleição no próprio dia, a pedido do partido de Lula, no país inteiro. Pode ser que nenhum tribunal anule nada. Não precisa. Metade da nação acredita que o juiz jogou, e na política essa crença cobra juros. Quem vai cobrar é o Congresso.

A minha leitura: o Brasil comete o mesmo erro do México. Confunde voto com democracia. Ganhar uma eleição não dá licença para governar sem contrapesos. Quando um governo ganha nas urnas e a corte termina de inclinar o campo, isso tem nome: autocracia eleitoral. No México vivemos isso com a reforma judicial. A diferença é que no Brasil o contrapeso que ainda estava de pé acaba de crescer.

Simón Levy, «A cunha: o que vem para o Brasil», lacuna.simonlevy.mx/pt e Patreon, 2 de novembro de 2026.

O Congresso: Lula ganhou a Presidência, perdeu o Congresso.

Enquanto todos olhavam o segundo turno, a eleição que define o próximo governo do Brasil já tinha acontecido. Foi em 4 de outubro, quando se elegeu o Congresso.

O Partido Liberal, o dos Bolsonaro, terá 121 deputados a partir de fevereiro. O PT, 70; com a federação, 88. No Senado, o PL terá 28 ou 29 das 81 cadeiras, conforme fiquem os suplentes. O PT, 9 ou 10.

Agora vamos somar como se soma em Brasília. Os partidos que apoiaram Flávio no segundo turno (PL, União, PP, Republicanos, Podemos e Novo) têm 286 deputados e 50 senadores. A esquerda inteira (a federação do PT, PSB, PSOL-Rede e PDT) tem 124 deputados e cerca de 15 senadores. No meio ficam 103 deputados e 16 senadores: o centro, puxado por PSD e MDB.

Faça o teste com o centro no zero. Na Câmara, faltam ao bloco de Flávio 56 votos para abrir um impeachment contra Lula. No Senado faltam só 4 para afastá-lo. E sozinho ele já tem mais que os 49 votos necessários para mudar a Constituição e mais que os 41 que bastam para fechar a Lula a porta do Supremo.

Isso não é teoria. Em 29 de abril de 2026, o Senado rejeitou Jorge Messias, o indicado de Lula ao STF, por 42 votos a 34. Não acontecia desde 1894. A cadeira que Luís Roberto Barroso deixou está vaga desde outubro de 2025.

Um alerta, porque os números enganam. O simulador supõe que o bloco de Flávio vota unido. Não é assim. Em 27 de outubro, União e PP deixaram sozinho o candidato do PL ao Senado e apoiaram Davi Alcolumbre. MDB, Republicanos, União e PSD cumprimentaram Lula. O centrão não é de ninguém. Se aluga. E isso leva à pergunta que ninguém está fazendo.

A cunha: Washington não briga com o Brasil por um homem.

Os Estados Unidos têm com o Brasil comércio, a Amazônia, o G20 e meio continente em jogo. E mesmo assim, em menos de 72 horas, abriram a porta para um candidato derrotado que saiu com os passaportes cancelados por ordem do Supremo.

Pagaram o preço em público. Lula disse que a primeira casa dos Bolsonaro são os Estados Unidos, onde vivem lambendo botas americanas. Vinte e cinco deputados democratas mandaram a Marco Rubio quinze perguntas e deram prazo até 13 de novembro para responder. O Itamaraty avalia atrasar o agrément do novo embaixador. Washington não moveu um músculo.

No sábado, 31, em Atlanta, ao fechar a reunião de chanceleres do G20, perguntaram a Marco Rubio se o governo dele teve algo a ver com a saída de Flávio. Ele respondeu que o governo dos Estados Unidos «não esteve envolvido diretamente». E acrescentou: «Ele já tinha visto, e o presidente decidiu permitir a entrada dele no país». Repare na palavra. Ele não disse que não. Disse que não diretamente. The New York Times informou que o avião foi fretado por Jason Miller, assessor de Trump, e o dono da companhia aérea disse à AFP que um intermediário pagou o voo de uma conta bancária nos Estados Unidos.

O resto está na análise completa: por que Rubio não podia dizer sim, o catálogo de 18 coisas que Lula não vai conseguir fazer, como se monta o impeachment desde janeiro, a OFAC, o México, o Irã, a Argentina, o Escudo das Américas e seis previsões assinadas, com o podcast completo.

Fonte: Simón Levy, «A cunha: o que vem para o Brasil», lacuna.simonlevy.mx e Patreon, 2 de novembro de 2026. Dados citados no texto: Tribunal Superior Eleitoral, Agência Senado, Migración argentina, registros do CBP citados por Estadão, G1 e O Globo, The New York Times, UOL, CNN Brasil, Brasil 61 e BP Money.
Flávio Bolsonaro é investigado no Brasil e nega as acusações; tem a seu favor a presunção de inocência. As ações eleitorais pendentes contra a chapa Lula-Alckmin não são uma decisão.
Seção

Argentina

A Patagônia oferecida aos centros de dados de IA.

04
Argentina · Inteligência artificial · Patagônia

Milei oferece 15% de imposto a quem trouxer IA à Patagônia. O primeiro projeto ocupa 130 mil hectares e não tem cliente.

O governo propõe baixar o imposto de renda corporativo de 25% para 15% em projetos de inteligência artificial e outras indústrias emergentes acima de US$ 1 bilhão. A medida espera o Senado. Enquanto isso, um grupo polonês arrendou terras perto de Trelew para um campus de US$ 3 bilhões.
3 min de leituraSimón Levy
15%imposto proposto para projetos de IA acima de US$ 1 bilhão (hoje 25%)
130.000hectares arrendados por 14 proprietários perto de Trelew
US$ 3 biinvestimento anunciado pela Green Capital, sem cliente

O problema, em poucas palavras.Os centros de dados de inteligência artificial precisam de três coisas: terra barata, energia e clima frio. A Patagônia tem as três. O governo de Javier Milei quer atraí-los com um imposto mais baixo e sem regulação. A pergunta é quanto a Argentina ganha e quanto ela entrega.

A. A proposta.Segundo a Associated Press, em reportagem publicada pela Euronews em 2 de novembro, o governo propõe reduzir o imposto de renda corporativo de 25% para 15% para projetos de inteligência artificial e de outras indústrias emergentes de pelo menos US$ 1 bilhão. A medida está pendente de aprovação no Senado. Nenhuma das fontes consultadas cita número de projeto ou de decreto, e o jornal não o publica sem documento.

B. O primeiro interessado.A desenvolvedora polonesa Green Capital planeja um centro de dados de US$ 3 bilhões na região de Trelew, em Chubut. Catorze proprietários arrendaram 130 mil hectares. O projeto ainda não tem cliente, e a construção começaria por volta de 2028. Pela estimativa da própria AP, o campus consumiria cerca de 2,7 vezes a eletricidade que a cidade de Buenos Aires usou em 2025. Alan Rocha Varsanyi, do Observatório Petroleiro Sul, resumiu a crítica: a capacidade de computação será exportada para onde a OpenAI ou outras empresas precisarem.

C. O que o incentivo não pede.Segundo a AP, o regime não exige reservar capacidade para uso local nem informar o uso de energia ou de água. Milei disse no mês passado, na Câmara de Comércio dos EUA, em Washington, que a Argentina não vai regular a IA. O Congresso já freou duas iniciativas vizinhas: a oposição forçou o governo a retirar o projeto que facilitava a compra de terras por estrangeiros e travou o plano de deixar agentes de IA controlarem empresas.

O dado necessário.A economia precisa do investimento. O PIB caiu 0,6% no segundo trimestre em relação ao anterior, segundo o INDEC, e a atividade de agosto recuou 1,7% na comparação anual. A arrecadação de IVA de outubro teria caído 7,6% real, pela estimativa do economista Nadin Argañaraz. A inflação de outubro sai em 12 de novembro; a consultoria Equilibra estima 1,8%, depois de 1,9% em setembro.

Os nomes.Javier Milei viaja na terça, 3 de novembro, às 23h, para a XXX Cúpula Ibero-Americana em Madri, com a secretária-geral da Presidência, Karina Milei, e o chanceler Pablo Quirno. Ele fala na quinta, 5. A agenda prevista inclui um Fórum Digital Ibero-Americano e uma primeira aliança ibero-americana de IA: o mesmo tema que ele quer vender com imposto baixo e sem regra.

Análise do jornal

Um desconto de 10 pontos de imposto sem contrapartida local é uma aposta: a Argentina troca arrecadação futura por obra presente. Pode funcionar, se a energia for nova e paga pelo investidor. Se a rede pública tiver de ser ampliada para atender o campus, o desconto vira subsídio duplo. O que falta no debate é o contrato de energia, não a alíquota.

A conta política.Segundo a consultoria Pulso Research, citada pelo Infobae, a desaprovação do governo chega a 66,4%, contra 28,9% de aprovação. O risco país fechou a sexta, 30, perto de 790 pontos, o maior desde outubro de 2025. Um regime de incentivos aprovado no Senado seria a primeira boa notícia de investimento em semanas, e por isso o governo tem pressa.

A comparação com o Brasil.O Brasil disputa os mesmos centros de dados com energia renovável abundante e um mercado interno maior, mas com carga tributária mais alta. Se a Argentina oferecer 15% sem exigências, investidores que olham a região farão a conta lado a lado. O que decide, porém, é a energia firme, e nisso o Brasil sai na frente.

O que observar.Se o Senado vota o regime antes do Orçamento, que vai ao plenário em 25 de novembro; se a Green Capital anuncia cliente; e se Chubut publica a demanda prevista de energia do projeto.

Saída jurisdicional

Estatuto
Lei 27.742 (Lei Bases e RIGI) como referência de incentivos; regime de IA pendente no Senado, sem número publicado.
Onde apresentar
Senado da Nação; Secretaria de Energia; Legislatura de Chubut.
Documento que falta
Falta o texto do regime com número, a avaliação de impacto hídrico e energético e o contrato de energia do campus.
Fontes: Associated Press via Euronews (2 nov 2026); La Nación (2 nov 2026); La Nueva/NA (1 nov 2026); INDEC, via TotalNews Agency; Infobae (1 nov 2026).
Estimativas de consumo são da AP, não oficiais. O regime não foi aprovado. Projeções de inflação são privadas.
Seção

Andes e Venezuela

Colômbia leva à Justiça 41 casos da Defesa de Petro.

05
Colômbia · Defesa · Contratos

A Defesa da Colômbia levou 41 casos do governo Petro à Justiça. A conta preliminar passa de 155 bilhões de pesos.

O ministro Jorge Eduardo Mora López, do governo de Abelardo de la Espriella, disse que há 82 relatórios de irregularidades e que metade já virou denúncia formal. Um dos casos é o contrato de manutenção dos helicópteros MI-17.
3 min de leituraSimón Levy
82relatórios de irregularidades na Defesa, segundo o ministro
41já viraram denúncias formais
155.000 mipesos colombianos de dano patrimonial preliminar

O problema, em poucas palavras.A Colômbia trocou de governo em agosto. O novo ministro da Defesa revisou contratos do governo anterior, de Gustavo Petro, e diz ter encontrado dinheiro mal gasto. Agora metade desses casos está nas mãos das autoridades judiciais. Isso não é sentença: é o começo de investigações.

A. O anúncio.Em 1º de novembro, o ministro da Defesa, general reformado Jorge Eduardo Mora López, informou que o ministério tem 82 relatórios de possíveis irregularidades, dos quais 41 deram lugar a denúncias formais perante as autoridades competentes. O dano patrimonial preliminar supera 155 bilhões de pesos, segundo o próprio ministério, publicado pelo El Universal de Cartagena.

B. As condutas.O ministério lista interesse indevido na celebração de contratos, contratos sem o cumprimento dos requisitos legais, suborno, concussão e possíveis falsidades em documentos públicos. O próprio comunicado ressalva que caberá às autoridades competentes determinar eventuais responsabilidades penais individuais.

C. O caso MI-17.O contrato de manutenção dos helicópteros MI-17 teria favorecido uma empresa que não reunia as condições exigidas, segundo o ministério. A Fiscalía General de la Nación investiga. Os MI-17 são helicópteros de projeto russo usados pelo Exército colombiano há décadas; desde 2022, peças e serviços vinculados a fabricantes russos estão sob sanções dos EUA e da União Europeia.

O dado necessário.155 bilhões de pesos, à taxa de 3.182,99 pesos por dólar, equivalem a cerca de US$ 48,7 milhões. Cálculo do jornal. Mora López foi designado em 6 de julho de 2026 pelo então presidente eleito Abelardo de la Espriella.

Os nomes.Jorge Eduardo Mora López, ministro da Defesa. Abelardo de la Espriella, presidente da Colômbia. Gustavo Petro, ex-presidente, sob cujo governo os contratos foram celebrados. Nenhum funcionário individual foi nomeado pelo ministério como responsável, e o jornal não nomeia ninguém além do que o comunicado diz.

Análise do jornal

Revisar o governo anterior é legítimo e necessário; transformar a revisão em espetáculo não é. O teste será a Fiscalía: se ela abre processos com nomes, datas e contratos, o anúncio era jurídico. Se não, era político. E o caso MI-17 merece uma pergunta que ninguém fez: de onde vinham as peças.

O padrão regional.Em vários países andinos, governos que assumem revisam contratos dos antecessores e levam os casos à Justiça. O resultado costuma depender menos do anúncio e mais da qualidade dos expedientes: datas, contratos, assinaturas, pagamentos. Uma denúncia bem documentada sobrevive à troca de procurador; uma denúncia de ocasião, não. Os 41 casos serão julgados por esse critério.

Por que importa fora da Colômbia.As compras militares são o setor em que corrupção e sanções se cruzam com mais frequência na América Latina. Helicópteros, peças e serviços de manutenção passam por intermediários, muitas vezes registrados em terceiros países. Quando um contrato é questionado por favorecer uma empresa sem as condições exigidas, a primeira pergunta de um banco correspondente nos EUA não é quanto custou, e sim quem estava do outro lado e de onde vinham as peças. Essa pergunta ainda não tem resposta pública.

O contexto político.De la Espriella tomou posse em 7 de agosto de 2026, quando Petro deixou o cargo. Até esta edição, as fontes consultadas não registravam resposta pública de Petro ao anúncio de 1º de novembro, e o jornal deixa o espaço aberto para ela. O ministério ressalvou que caberá às autoridades determinar responsabilidades individuais. Essa ressalva é a correta, e é ela que o jornal mantém.

A conta.Se os 41 casos dividissem por igual os 155 bilhões de pesos, cada um representaria cerca de 3,8 bilhões de pesos, ou perto de US$ 1,2 milhão. A média é ilustrativa: o próprio ministério não detalhou a distribuição, e o caso MI-17 tende a concentrar a maior parte. Cálculo do jornal.

O que observar.Se a Fiscalía confirma imputações no caso MI-17; se a Contraloría abre processos fiscais; e se algum fornecedor aparece nas listas do OFAC.

Saída jurisdicional

Estatuto
Nos EUA: Foreign Corrupt Practices Act (15 U.S.C. §78dd-1) se houver pagamentos de empresas com vínculo americano; IEEPA e as sanções contra a Rússia (EO 14024) se as peças vierem de entidades designadas.
Onde apresentar
Fiscalía General de la Nación; Contraloría General; nos EUA, DOJ Fraud Section e OFAC.
Documento que falta
Falta o contrato MI-17 com o nome do fornecedor e a origem certificada das peças.
Fontes: Ministério da Defesa da Colômbia, via El Universal (1 nov 2026); designação de Mora López, via Bloomberg Línea e El Universal (6 jul 2026).
Denúncia não é condenação. Todas as pessoas e empresas envolvidas são presumidamente inocentes. A conversão em dólares é cálculo do jornal.
Seção

América Central e Caribe

Cuba estreia sua primeira lei de cidadania.

06
Cuba · Cidadania · Migração

Cuba estreou sua primeira lei de cidadania. Quem tem passaporte americano continua cubano ao entrar na ilha.

Desde 1º de novembro vigoram as novas leis de Migração, Cidadania e Estrangeiros. O limite de 24 meses no exterior desaparece. Ter outra nacionalidade não faz perder a cubana, e quem entra deve se identificar como cubano. No mesmo dia, a UNE previu 1.965 MW de afetação.
3 min de leituraSimón Levy
24meses: o limite de permanência no exterior que deixa de existir
965 MWdisponibilidade elétrica no pico previsto de 1º de novembro
33,3%da demanda que Cuba podia cobrir nesse pico (cálculo do jornal)

O problema, em poucas palavras.Cuba mudou as regras para quem sai, quem volta e quem tem dois passaportes. Para milhões de cubanos no exterior, sobretudo nos Estados Unidos e na Espanha, a pergunta é prática: o que acontece comigo quando eu pousar em Havana?

A. O que mudou.Desde 1º de novembro de 2026 vigoram as novas leis de Migração, Cidadania e Estrangeiros, segundo a OnCuba. É a primeira lei de cidadania do país. O limite de 24 meses no exterior, que fazia o cubano perder a residência, desaparece. Segundo a CubitaNOW, a norma estabelece que conseguir outra nacionalidade não significa perder automaticamente a cubana.

B. O que se exige.Cubanos com cidadania espanhola ou americana mantêm a cubana, a menos que sigam o procedimento cubano de renúncia. Devem se identificar como cubanos ao entrar, permanecer e sair do país, com os documentos correspondentes, e não podem exigir privilégios em Cuba pela segunda nacionalidade. A renúncia exige ser maior de 18 anos, ter outra cidadania e residir fora de Cuba; é pedida por escrito no consulado, com declaração juramentada em cartório, prova da outra cidadania, residência e antecedentes penais, e só vale quando a autoridade cubana aceita.

C. O país que recebe.No mesmo 1º de novembro, a União Elétrica previu para o horário de pico disponibilidade de 965 MW, demanda máxima de 2.900 MW, déficit de 1.935 MW e afetação de 1.965 MW. Quatro unidades térmicas estavam em avaria e três em manutenção. No sábado, 31, houve afetação durante as 24 horas, com máximo de 2.022 MW às 19h20, segundo a UNE e o Ministério de Energia e Minas.

O dado necessário.965 dividido por 2.900 dá 0,333. No pico de 1º de novembro, Cuba tinha um terço da eletricidade de que precisava, abaixo dos 36,4% de 31 de outubro. Cálculo do jornal com dados da UNE.

Os nomes.As leis foram aprovadas pela Assembleia Nacional do Poder Popular e são aplicadas pelo Ministério do Interior e pelo MINREX nos consulados. Nos EUA, cinco cubanos foram condenados por cobrar até US$ 40 mil de migrantes e facilitar pedidos de asilo falsos, segundo a OnCuba de 31 de outubro.

Análise do jornal

A lei moderniza o que estava velho, como o limite de 24 meses, e ao mesmo tempo amarra o cubano do exterior à jurisdição cubana. Para o Estado, a diáspora é fonte de divisas; a lei facilita a ida e a volta. Para o viajante com passaporte americano, o risco é jurídico: Cuba não o tratará como estrangeiro. Isso deve estar no folheto de qualquer agência de viagens de Miami, e não está.

A pergunta que fica.Uma lei de cidadania moderna pede um Estado capaz de aplicá-la: consulados com prazo, registros digitais, e um país onde o visitante consiga carregar o telefone. Cuba entrega a primeira parte no papel em 1º de novembro; a segunda depende de usinas térmicas que estão em avaria.

O efeito para a diáspora.Durante décadas, o cubano que ficava mais de 24 meses fora perdia a residência e, com ela, direitos de propriedade e de herança na ilha. O fim desse limite muda o cálculo de quem tem casa, pais idosos ou pequenos negócios em Cuba. A temporada alta de turismo começa em novembro e vai até abril, e o governo precisa de divisas: segundo a OnCuba, menos de meio milhão de visitantes internacionais chegaram até setembro.

O efeito para quem tem passaporte americano.Se você entra como cubano, Cuba o trata como cubano. Na prática, em caso de detenção, o consulado dos EUA ou da Espanha pode ter acesso limitado, porque o Estado cubano não reconhece a outra nacionalidade dentro do seu território. Não é novidade jurídica, mas a nova lei a escreve com todas as letras.

O que observar.A publicação do regulamento na Gaceta Oficial, as orientações consulares do Departamento de Estado e da Espanha, e o déficit elétrico da semana.

Saída jurisdicional

Estatuto
Convenção de Viena sobre Relações Consulares, art. 36 (assistência consular), cujo alcance depende de o Estado receptor reconhecer a dupla nacionalidade.
Onde apresentar
Consulados de Cuba; Departamento de Estado (Bureau of Consular Affairs); Ministério de Assuntos Exteriores da Espanha.
Documento que falta
Falta o número e a data da Gaceta Oficial com o texto e o regulamento da lei, que as fontes consultadas não citam.
Fontes: OnCuba (1 nov 2026); CubitaNOW (27 out 2026); União Elétrica e Ministério de Energia e Minas, via Directorio Cubano (1 nov 2026).
O resumo da lei vem de veículos especializados; o jornal não leu ainda o texto na Gaceta Oficial. Os condenados nos EUA não são nomeados aqui.
Seção

EUA e China na região

Rubio recebe o chanceler de Delcy; o petróleo muda de rota.

07
EUA · Venezuela · China · Petróleo

Rubio recebe hoje o chanceler de Delcy Rodríguez. O petróleo venezuelano já mudou de rota: 236% mais para os EUA.

Marco Rubio e Oliver Blanco se reúnem nesta segunda no Departamento de Estado, o primeiro encontro bilateral desde o restabelecimento das relações. A Venezuela vendeu 127,54 milhões de barris aos EUA até agosto. Em setembro, a China não comprou nenhum.
3 min de leituraSimón Levy
127,54 mibarris de petróleo venezuelano aos EUA entre janeiro e agosto
236%alta frente ao mesmo período de 2025
0barris venezuelanos comprados pela China em setembro

O problema, em poucas palavras.Dez meses depois da operação americana que capturou Nicolás Maduro, a Venezuela tem uma presidente interina, Delcy Rodríguez, um novo chanceler e um novo cliente para o seu petróleo: os Estados Unidos. Hoje esse chanceler senta com Marco Rubio. O que se negocia é a transição, e o petróleo já está do lado americano da mesa.

A. A reunião.Segundo a EFE, o Departamento de Estado anunciou no domingo que Rubio recebe Oliver Blanco nesta segunda, 2 de novembro, na sede do departamento, em Washington; a EFE fala em 10h locais e outra fonte em meio-dia. É o primeiro encontro bilateral desde o restabelecimento das relações diplomáticas, anunciado em 5 de março de 2026. Rodríguez nomeou Blanco em 29 de outubro, no lugar de Félix Plasencia. Na sexta, Blanco esteve com o encarregado de negócios dos EUA em Caracas, John Barrett. O Departamento de Estado não divulgou uma agenda detalhada.

B. O que se diz sobre a transição.Segundo a EFE, o governo Trump apoia um roteiro para renovar instituições que deveria levar Rodríguez a declarar a vacância da Presidência em 2027 e abrir uma janela de seis meses para eleições, negociado com um bloco opositor liderado por Dinorah Figuera. É informação de imprensa, não documento oficial. María Corina Machado voltou ao país em 25 de outubro.

C. O petróleo.Segundo dados citados pelo El Nacional, a Venezuela exportou aos EUA 127,54 milhões de barris nos primeiros oito meses de 2026, 89,58 milhões a mais que no mesmo período de 2025: alta de 236%. Do lado chinês, dados alfandegários publicados em 20 de outubro, segundo o Poder360, mostram que a China não importou petróleo da Venezuela, dos EUA nem do Irã em setembro, e que o Brasil, com 44,29 milhões de toneladas entre janeiro e setembro, passou a Arábia Saudita, com 43,12 milhões.

O dado necessário.O caso Maduro segue na Corte Federal do Distrito Sul de Nova York, agora com a juíza Analisa Torres, depois da morte do juiz Alvin K. Hellerstein. O julgamento está marcado para 14 de junho de 2027; Maduro e Cilia Flores se declararam inocentes. No domingo, em comício em Dubuque, Iowa, Trump chamou a operação de “uma guerra de um dia” em que “ninguém morreu”. Cuba reconheceu oficialmente 32 militares mortos; a AP contou ao menos 56 mortos venezuelanos e cubanos.

Os nomes.Marco Rubio, secretário de Estado. Oliver Blanco, chanceler da Venezuela. Delcy Rodríguez, presidente interina. John Barrett, encarregado de negócios dos EUA em Caracas. Dinorah Figuera, à frente do bloco opositor citado pela EFE. Analisa Torres, juíza federal.

Análise do jornal

Washington chega à mesa com o petróleo já fluindo para o norte e com o julgamento de Maduro marcado. Caracas chega com pouco a oferecer além do calendário eleitoral. Por isso a pergunta desta segunda não é se haverá acordo, mas se ele terá data. Um roteiro com vacância em 2027 e seis meses de janela é uma promessa longa para um país que já viu muitas.

Para o Brasil, a consequência é indireta e grande: a China perdeu a Venezuela e o Irã como fornecedores e encontrou no pré-sal a alternativa. Isso dá a Brasília uma carta que ela ainda não jogou.

O que está em jogo para o Brasil.Em setembro, o Brasil vendeu à China 5,15 milhões de toneladas de petróleo, cerca de 1,25 milhão de barris por dia, alta de 18% em um ano. A Arábia Saudita caiu 62%. A Rússia segue em primeiro. Para o Itamaraty, isso significa que a relação com Pequim tem um componente energético que não tinha há dois anos, justamente quando a relação com Washington passa pelo caso Flávio.

O que observar.O comunicado do Departamento de Estado depois da reunião; qualquer menção a licenças da OFAC para o petróleo; e a data, se houver, de eleições.

Saída jurisdicional

Estatuto
Regulamento de sanções da Venezuela (31 CFR Parte 591) e licenças gerais da OFAC; no caso Maduro, 21 U.S.C. §960a (narcoterrorismo) e 18 U.S.C. §2340A (tortura).
Onde apresentar
Departamento de Estado; OFAC; Corte Federal do Distrito Sul de Nova York.
Documento que falta
Falta a agenda oficial da reunião e o texto do roteiro de transição, que até agora só existe em relatos de imprensa.
Fontes: EFE via El Diario (2 nov 2026); Radio América VE (2 nov 2026); El Nacional, via Radio América VE; dados alfandegários chineses via Poder360 e DOL (21 out 2026); Infobae/EFE (2 nov 2026); CiberCuba (2 nov 2026).
Nicolás Maduro e Cilia Flores são presumidamente inocentes até sentença. O roteiro de transição é relato de imprensa, não documento oficial. Os números de mortos vêm de fontes distintas e não coincidem.
Simón disse primeiro

Minhas previsões contra os fatos.

O que eu disse, quando eu disse, e o que aconteceu.

1Cumprido0Pendente
27 out 2026, 20h
Flávio sairia do Brasil rumo aos Estados Unidos com o apoio de Javier Milei.

Prova: Flávio aterrissou em Opa-locka, Miami, e agradeceu publicamente a Javier Milei.

Cumprido
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A mesa

O resto que importa hoje, em poucas linhas.

Brasil

Itaú, Magalu, C&A e Sabesp abrem a temporada

Os quatro publicam resultados do terceiro trimestre na terça, depois de Finados. Fonte: AmdJus/InfoMoney.

Brasil

Caged de setembro sai na quarta

A projeção é de 150 mil vagas formais, no mesmo dia do Copom. Fonte: AmdJus/InfoMoney.

Argentina

Lei de soberania ajustada às exigências dos EUA

As sanções ficariam limitadas a empresas e fundos com participação minoritária de até 2%; sessão prevista para 18 de novembro. Fonte: Infobae.

Argentina

O Orçamento vai ao plenário em 25 de novembro

Antes da reforma eleitoral, que fica para sessões extraordinárias. Fonte: Infobae.

Andes e Venezuela

Delcy abriu o Natal em 1º de novembro

No Paseo Los Próceres, perto do Forte Tiuna, com o festival “Venezuela Renace”. Fonte: Infobae/EFE.

Andes e Venezuela

Leão XIV viajará a Uruguai, Argentina e Peru

A missa em Buenos Aires está prevista para 9 de novembro. Fonte: OnCuba e Infobae.

América Central e Caribe

Cinco cubanos condenados nos EUA

Cobravam até US$ 40 mil de migrantes e facilitavam pedidos de asilo falsos. Fonte: OnCuba (31 out).

EUA e China na região

Brasil, segundo fornecedor de petróleo da China

44,29 milhões de toneladas de janeiro a setembro, à frente dos 43,12 milhões da Arábia Saudita. Fonte: dados alfandegários via Poder360.

O que ninguém conectou

Nove datas em 46 dias. Nenhuma delas depende de Miami.

Ninguém juntou o calendário da região em uma só linha. Hoje, 2 de novembro, Rubio recebe o chanceler venezuelano. Amanhã, 3, os EUA votam e Milei embarca para Madri. Na quarta, 4, o Copom decide a Selic. Na quinta, 5, Milei fala na Cúpula Ibero-Americana. Em 12, o INDEC publica a inflação de outubro. Em 18, a Câmara argentina vota a lei de soberania ajustada aos EUA. Em 25, o Orçamento argentino. Em 4 de dezembro, a cúpula do Mercosul em Montevidéu. E até 18 de dezembro, a diplomação no TSE.

São nove datas em 46 dias. Em todas, quem decide são tribunais, bancos centrais, congressos e chancelarias. Nenhuma passa por uma nota publicada de Miami. É por isso que o leitor que protege o próprio dinheiro deve olhar o calendário, não o feed.

E há um cruzamento a mais: entre 4 e 18 de dezembro, Brasil e Argentina precisam negociar a presidência do Mercosul sem embaixadores, enquanto o Senado argentino discute um regime de IA de 15% que disputa com o Brasil os mesmos centros de dados. Cálculo e cruzamento do jornal.